15 temas de redação para o Enem 2026

Professores e especialistas listam possíveis temas para a redação do Enem 2026. Entre os assuntos estão IA, eventos climáticos extremos e saúde mental de adolescentes
Por Lucas Afonso

Mulher aponta para texto de redação de estudante.
Redação do Enem cobra gênero dissertativo-argumentativo sobre temática social.
Crédito da Imagem: Foto - Bruno Peres / Agência Brasil
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Possíveis temas de redação para o Enem 2026 envolvem assuntos como Inteligência Artificial (IA), saúde mental de adolescentes, mudanças climáticas, trabalho escravo e violência escolar.

Na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), os candidatos têm de escrever um texto dissertativo-argumentativo seguindo uma proposta de tema social. Na última edição, o tema abordou as perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira.

A nota da redação varia de zero a 1.000 pontos. A correção da produção textual é feita conforme as cinco competências utilizadas pelos corretores do Enem. 

Veja temas de redação que já caíram no Enem 

Tópicos deste artigo

15 possíveis temas para a redação do Enem 2026 

Confira, abaixo, lista de 15 possíveis temas de redação para o Enem 2026, segundo especialistas:

  • Desafios enfrentados por cidades brasileiras diante de desastres climáticos extremos 
  • Desafios para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital
  • Equilíbrio entre saúde e padrões estéticos de magreza
  • Caminhos para o combate à misoginia e à radicalização digital
  • Desafios para combater a gentrificação e o déficit habitacional urbanos
  • Desafios para combater os efeitos danosos da Inteligência Artificial (IA) na distinção entre verdadeiro e falso 
  • Os desafios da violência escolar no Brasil
  • Caminhos para combater a invisibilidade das mulheres cientistas e pesquisadoras no Brasil
  • Caminhos para enfrentar o trabalho escravo no Brasil
  • Desafios para promover a participação social como mecanismo de fortaleciemnto do sistema democrático 
  • Saúde mental dos adolescentes brasileiros na era das telas
  • Caminhos para o combate à desinformação no ambiente digital brasileiro
  • População infantil em situação de rua no Brasil
  • Violência sexual contra as crianças no Brasil: como prevenir e combater a impunidade?
  • Caminhos para combater o alcoolismo no Brasil 

Agora, fique por dentro de explicações sobre as propostas dos especialistas e dicas de repertórios para cada tema.

1) Desafios enfrentados por cidades brasileiras diante de desastres climáticos extremos 

A última vez que o Enem cobrou um assunto na redação relacionado ao meio ambiente foi na edição de 2008, na época o tema foi "Como preservar a Floresta Amazônica".

Nesse sentido, Maysa Barreto, assistente pedagógica da Red1000, acredita que é importante considerar a retomada de temas que não caem há muitos anos, como aconteceu na aplicação do Pará no ano passado que cobrou algo sobre mercado de trabalho, que caiu por último apenas em 2010.

Eventos climáticos extremos foram vivenciados por diferentes cidades brasileiros, caso das enchentes no Rio Grande do Sul e mais recentemente as chuvas em Juiz de Fora.

Enchente que aconteceu no Acre em 2015.
Enchente que aconteceu no Acre em 2015.
Crédito: Sérgio Vale / Agência de Notícias do Acre.

A especialista destaca que a ação antropológica tem se agravado cada vez mais e com isso, os eventos climáticos extremos tem ocorrido com mais frequência e junto a isso o aumento da temperatura do planeta decorrente a emissão de gases na atmosfera.

O estudante pode fazer reflexões sobre a falta de atuação preventiva dos estados e a negligência das políticas públicas direcionadas a pessoas em situação de vulnerabilidade social neste contexto de eventos climáticos extremos.

Veja algumas produções separadas por Maysa para ajudar no repertório sobre o tema: 

✅ Documentário “Todos Nós por Nós” (2025): produzido pela Secretaria de Comunicação do Rio Grande do Sul, o filme traz relatos de cidadãos que estiveram presentes nas ações de assistência, resgate e reconstrução após a catástrofe de 2024.
✅ Livro “Inundadas” (2024), da escritora e historiadora Renata Dal Sasso: retrata a tragédia protagonizada pelo Rio Grande do Sul em 2024, abordando, por meio da historicidade, como as enchentes anteriores foram apagadas da memória coletiva da região, com o intuito de desconstruir a ideia de que a chuva “desabou sobre nós” apenas em 2024.
✅ Termo “Racismo ambiental” (1982), cunhado pelo ativista Benjamin Chaves: expressão que denomina a desproporcionalidade dos impactos de consequências socioambientais em populações marginalizadas, como pretos, indígenas, pobres e comunidades tradicionais, evidenciando que a degradação ambiental não afeta a todos da mesma maneira.

Veja: 7 exemplos de redação nota mil no Enem 

2) Desafios para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital

A Lei Felca ou ECA Digital (Lei nº 15.211) evidencia uma realidade social marcada pelos desafios para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, proposta temática sugerida por Francisco Gonçalves, professor de Língua e Pordução da Escola Móbile.

Como abordar o tema?

Por um lado, entre os pontos centrais dos avanços, pode-se citar o fato de a legislação deixar claras as responsabilidades de cada agente nesse processo, incluindo o papel da família, além das empresas fornecedoras de serviços com provável acesso por parte deste público.

Além disso, outros aspectos podem ser elencados: a obrigatoriedade de implementação de mecanismos de aferição etária confiáveis; proteção contra exploração comercial, monetização e superexposição; vedação de acesso a sites e a conteúdos nocivos; proibição de perfilamento para fins de direcionamento publicitário de produtos e serviços; fim do chamado design manipulativo. 

Crianças sentadas em círculo com celulares nas mãos
Lei Felca entrou em vigor em 17 de março de 2026.
Crédito: Arquivo / EBC.

Por outro lado, há risco de retirada de conteúdo informativo e de caráter educativo sobre determinados assuntos que, por questões políticas ou crenças religiosas, poderão vir a ser removidos. Proteger a infância exige enfrentar o ambiente simbólico que forma subjetividades.

Isso significa promover diversidade de corpos e identidades, fortalecer a educação emocional e construir mecanismos públicos de curadoria digital que considerem desigualdades estruturais. Também significa reconhecer que ansiedade e sofrimento não podem continuar sendo matéria-prima para lucro das grandes plataformas.

Repertório

Para o repertório acadêmico, uma referência sugerida por Francisco é o psicólogo social Jonathan Haidt. Para o autor de A Geração Ansiosa, no início da década de 2010, quando a internet móvel de alta velocidade, houve o comprometimento da saúde mental de crianças e adolescentes.  

A reflexão ideal para a redação é apontar as consequências advindas da mudança da centralidade da infância migrou da brincadeira para a conectividade: privação social, privação de sono, fragmentação da atenção e dependência.

Saiba mais: O que é repertório cultural na redação do Enem?

3) Equilíbrio entre saúde e padrões estéticos de magreza

O uso indiscriminado de medicamentos como o Mounjaro com finalidade estética como também os algoritmos "fitness" são debates que podem cair na prova de redação do Enem, acredita o professor Francisco.

Como abordar o assunto?

A indústria do bem-estar e o marketing do corpo são ferramentas de otimismo ligadas às narrativas de salvação individual. Criaram-se promessas de saúde perfeita, longevidade sem esforço e equilíbrio emocional individualizados estão por toda parte.

A palavra “bem-estar” virou um rótulo tão amplo que praticamente cabe tudo: alimentação, exercícios, sono, gerenciamento de estresse, organização da rotina, rituais variados, suplementos, cosméticos, técnicas respiratórias, e até práticas que têm muito mais a ver com imaginação espiritual do que com qualquer manual clínico.

Cenetas emagrecedoras
Canetas emagrecedoras devem ser utilizadas sob acompanhamento médico.
​​​​​Crédito: Shutterstock.

Em sua essência, bem-estar é apenas a busca ativa para viver o melhor possível fora do consultório médico: prevenir problemas, manter o corpo e o cérebro funcionando, acalmar a mente e, de alguma forma, enfrentar os desafios do cotidiano. No entanto, o modo como essa busca se transformou em mercado – imenso, difuso, pautado em soluções fáceis, como medicamentos, e altamente lucrativo – tornou-se um modo de exploração.

Repertórios

Os estudantes podem citar a obra de Rinna Raphael, chamada Culto ao Bem-estar. Ela expõe um paradoxo profundo: quanto mais as pessoas se sentem pressionadas, exaustas e sobrecarregadas, mais se tornam alvo ideal para soluções mágicas vendidas como atalhos para uma vida melhor.

A autora aponta que a ideologia owell ness tenha encontrado seu público mais fiel no mundo atual: um público que quer, genuinamente, cuidar de si, mas que também é alvo preferencial de discursos que transformam cansaço em falha moral e autocuidado em obrigação marketing do bem-estar contemporâneo.

Desse modo, o que o culto do bem-estar mostra é o risco de transformar saúde em crença, de substituir evidência por promessas sedutoras, de operar um mercado sem proteção ao consumidor enquanto a culpa é devolvida inteiramente ao indivíduo. 

É possível abordar também o filme A Substância, uma obra sarcástica e provocativa em relação à indústria cultural e aos excessos mortais em torno da aparência. A película se apropria dos códigos de certos gêneros e os amplifica até limites inesperados, sem qualquer pudor para a grosseria, o cinismo ou um perturbador senso de humor.

4) Caminhos para o combate à misoginia e à radicalização digital

Francisco justifica sua escolha por "Caminhos para o combate à misoginia e à radicalização digital", uma vez que recentemente foi aprovado um projeto de lei que inclui a misoginia na Lei do Racismo (nº 7.716/1989). A nova legislação aumenta as penas para o homem que 

5) Desafios para combater a gentrificação e o déficit habitacional urbanos 

A "gourmetização" de bairros antigos expulsa moradores tradicionais em prol da especulação imobiliária é uma realidade e pode servir como tema da redação do Enem, segundo Francisco Gonçalves.

Como abordar o assunto?

Os estudantes podem trabalhar o conflito entre o interesse privado (lucro) e o interesse público (moradia). O valor do patrimônio coletivo do espaço público nem sempre é devidamente considerado pelas pessoas e nem por governos. A noção do espaço público está associada com a de cidadania, uma vez que envolve direitos básicos das populações menos favorecidas.

Áreas públicas dependem da boa administração em utilizar nossos impostos diretos e indiretos, configurando o legítimo direito de todos a seu uso. No entanto, nos últimos anos, é possível verificar o processo de destruição do conceito de interesse público no âmbito da administração dos parques urbanos. Caso emblemático é o do Parque Estadual Villa-Lobos, na zona oeste de São Paulo. Ocorre que, ao longo dos últimos anos, esse parque vem se transformando gradativamente num grande terreno destinado à ocupação por empresas particulares. 

Assista à videoaula sobre gentrificação para ficar por dentro do assunto!

Repertórios

O filme brasileiro Aquarius é um excelente repertório para ilustrar a resistência de moradores antigos contra grandes construtoras.  A obra expõe questões ligadas à especulação imobiliária, gentrificação e memória afetiva no contexto urbano. 

Do ponto de vista acadêmico, vale ressaltar a obra O Direito à Cidade, do geógrafo norte-americano David Harvey. Ele aponta que no mundo contemporâneo, os ideais de direitos humanos deveriam se tornar o centro do palco.

Gasta-se muita energia para promover sua importância para a construção de um mundo melhor, no entanto, de modo geral, os conceitos em circulação não desafiam de maneira fundamental a lógica de mercado hegemônica nem os modelos dominantes de legalidade e de ação do Estado.

Vive-se, afinal, num mundo em que os direitos da propriedade privada e a taxa de lucro superam todas as outras noções de direito. O direito à cidade é muito mais que a liberdade individual de ter acesso aos recursos urbanos: é um direito de mudar a nós mesmos, mudando a cidade. 

6) Desafios para combater os efeitos danosos da Inteligência Artificial (IA) na distinção entre verdadeiro e falso 

Diante da popularização de vídeos e imagens geradas por IA, especialmente após o conflito entre Estados Unidos e Irã, para Francisco Gonçalves a capacidade humana de filtrar a realidade está em xeque. 

Como abordar o assunto?

Os vestibulandos podem discutir que o problema não é apenas tecnológico, mas estrutural, destaca Francisco. É relevante abordar que a era digital ou regime de informação é uma forma contemporânea de dominação em que o exercício do poder ocorre pelo processamento algorítmico de dados e informações pelas Big Techs.

Como consequência desse processo, tem-se um poder exercido pelas grandes empresas de tecnologia que suprime a soberania popular e projeta a dominação pelos dados virtuais. Nessa lógica, a IA não apenas "engana", ela molda o comportamento por meio de um processo da manipulação da subjetividade através das informações dos usuários das redes sociais. Com efeito, a distinção entre verdadeiro e falso se perde porque a informação deixou de ser um meio de conhecimento para se tornar um meio de estímulo ao vício em telas e a ratificação do poder advindo das empresas de tecnologia.

Dicas

Os estudantes podem citar o conceito de Infocracia descrito por Byung-Chul Han, em obra homônima, aponta que o problema central é que a dominação contemporânea se dá pela captura do psiquismo de indivíduos muito mais suscetíveis à manipulação, o que o autor chama de psicopolítica.

Não por acaso, tendo como base a ideia de intervenção do Enem, o letramento digital surge como única saída para o combate à desinformação, sobretudo em um ano pautado em eleições federais e estaduais no Brasil.  

Outro caminho, ainda com base na crítica feita por Byung-Chul Han, é o controle por meio de leis ao uso do algorítmico por meio da regulação da Big Techs. 

7) Os desafios da violência escolar no Brasil 

Márcia Pelachin, coordenadora de redação do Colégio Rio Branco, considera os "Desafios da violência escolar no Brasil" como um possível tema para a redação do Enem.

Isso porque o país enfrenta um cenário de violência em escolas, em que os casos de agressões e ataques no contexto escolar aumentaram de forma significativa nos últimos dez anos. Como repertório para a escrita, a especialista sugere a série "Adolescência".

8) Caminhos para combater a invisibilidade das mulheres cientistas e pesquisadoras no Brasil 

Pelachin também sugere "Caminhos para combater a invisibilidade das mulheres cientistas e pesquisadoras no Brasil".

A especialista justifica sua escolha pelo fato de que no Brasil, os livros didáticos reforçam, muitas vezes, estereótipos sexuais, retratando as mulheres no trabalho doméstico e os homens fora de casa. Com isso, é essencial que os educadores repensem as questões de gênero e quebrem paradigmas criados e ilustrados nesta ferramenta de ensino.

Como repertório, Márcia cita o livro "Cartas para minha avó", de Djamila Ribeiro, que descreve sua trajetória de vida para conseguir uma formação em filosofia. 

Mulheres cientistas
Apesar de ter crescido, participação das mulheres na ciência ainda é baixa.
Crédito: Tomaz Silva / Agência Brasil.

9) Caminhos para enfrentar o trabalho escravo no Brasil 

"Caminhos para enfrentar o trabalho escravo no Brasil" está também, entre as apostas de Márcia. Ao longo do ano, foram registradas 4.515 denúncias de trabalho escravo, conforme dados do Ministério do Direitos Humanos. Somente na construção civil e no agronegócio, foram mais de 65 mil resgates de pessoas nesta situação desde 1995.

A professora considera importante explorar como repertório o livro “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, caracterizando o trabalho do personagem Fabiano - trabalhador rural que sempre deve ao patrão, cujas contas não parecem corretas e justas.

10) Desafios para promover a participação social como mecanismo de fortaleciemento do sistema democrático 

José Leandro Ferreira, professor de literatura, redação e análise linguística no Anglo Alante, sugere o tema "Desafios para promover a participação social como mecanismo de fortalecimento do sistema democrático".

O tema propõe que a saúde de uma nação não deve ser medida apenas pela realização de eleições livres, mas pela capacidade e disposição de seus cidadãos de interferir diretamente na gestão do bem comum. É um debate sobre corresponsabilidade: o governo tem o dever de abrir as portas, e a sociedade tem o dever de entrar e ocupar seu lugar, afirma o educador.

Nessa perspectiva, a discussão gira em torno da ideia de que o voto, embora fundamental, é o esforço mínimo da cidadania. O fortalecimento do sistema democrático depende de uma sociedade que atue nos "intervalos" das eleições. Isso ocorre quando grupos ocupam conselhos municipais, participam de audiências públicas ou se organizam em movimentos sociais para fiscalizar o poder público. Sem essa pressão popular, o sistema tende a se fechar em si mesmo e atender apenas a interesses de elites ou grupos isolados.

Contudo, o que se vê na prática é uma apatia política. Em outras palavras, a população deixa de acreditar que sua voz tem poder, ela se retira da esfera pública. Esse "vazio" deixado pela sociedade é perigoso, pois é nele que surgem soluções autoritárias ou messiânicas — a ideia de que um único líder resolverá tudo sem que precisemos participar. O fortalecimento democrático, portanto, é o antídoto contra o desânimo social e o autoritarismo.

Para isso, é necessário entender que não existe participação social efetiva sem acesso à informação e educação cívica. Para que o cidadão fortaleça a democracia, ele precisa compreender como o Estado funciona, onde o dinheiro é aplicado e quais são os canais de denúncia e sugestão. Por isso, o tema toca indiretamente na desigualdade social: em um país onde muitos lutam pela sobrevivência básica, a participação política acaba sendo um privilégio, o que gera um sistema democrático desequilibrado.

Assista à videoaula sobre democracia aqui!

Argumentação

  • Manipulação social historicamente programada 

A educação tem um papel muito importante para que se possa exercer a cidadania, pois ela auxilia os indivíduos na compreensão de seus direitos, de tal forma que possam cobrar às autoridades, a fim de que elas realizem ações para a promoção da liberdade, da justiça e do desenvolvimento socioeconômico. Contudo, o problema é que: no Brasil, aconteceram primeiro as leis que contemplam os direitos sociais. Somente após eles, surgiu a preocupação com a efetivação dos direitos políticos.

  • Combate ao messianismo

Historicamente, a cidadania no Brasil foi "concedida" pelo Estado e não "conquistada" pelo povo. Isso criou uma cultura de súditos que esperam a ação do governo em vez de cidadãos que exigem direitos. Dessa forma, o fortalecimento democrático exige a quebra dessa lógica messiânica. A participação em conselhos e associações transforma o "súdito" (passivo) em "cidadão" (ativo), combatendo a ideia de que a política é algo feito para o povo, e não pelo povo.
 
Repertório

Para esses argumentos, a teoria “Cidadania Plena”, explicada na obra “Cidadania no Brasil: o longo caminho”, do historiador José Murilo de Carvalho, seria ideal, complementa José Leandro. 

11) Saúde mental dos adolescentes brasileiros na era das telas

A saúde mental dos adolescentes brasileiros na era das telas é uma das apostas de Thiago Braga, autor de Língua Portuguesa do Sistema de Ensino pH. Ele justifica a escolha por conta de alguns fatores, entre eles a sanção da Lei nº 15.100 que restringe o uso de aparelhos eletrônicos pessoais em escolas públicas e privadas da educação básica de todo o país.

Essa legislação evidencia que o objetivo é salvaguardar a saúde mental, física e psíquica de crianças e adolescentes. Além disso, foi aprovada também a Lei nº 15.211, conhecida como ECA Digital, com intuito de proteger menores em ambientes digitais.

Thiago lembra também que a Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconhece a nomofobia, o medo de estar sem o celular, como um transtorno. Pesquisa Datafolha de outubro de 2024 revelou que 62% dos brasileiros apoiam a restrição do uso de celular nas escolas. "Há, portanto, marco legal recente, ampla cobertura jornalística e debate público maduro, três ingredientes que costumam atrair a banca".

Como o estudante pode abordar?

O Enem já discutiu o estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira em 2020, mas o ângulo agora é distinto. O candidato deve articular três frentes complementares, elenca Thiago:

  • Dimensão individual envolve uso problemático de telas, queda de concentração, ansiedade e sofrimento psíquico.

  • Dimensão escolar passa pelo papel da Lei nº 15.100, pela formação continuada de professores e pela criação de espaços de escuta e acolhimento previstos na própria legislação.

  • Dimensão das plataformas exige discutir a responsabilidade das big techs por conteúdos que afetam menores, especialmente após a decisão do STF de junho de 2025 sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet.

Repertórios

Para Thiago, vale conhecer dados do Anuário Brasileiro de Educação Básica e da pesquisa TIC Kids Online Brasil, do Cetic.br. No campo da reflexão, a obra A Geração Ansiosa, do psicólogo social Jonathan Haidt, foi um dos livros mais discutidos no Brasil em 2024 e 2025 e oferece um arcabouço bem estruturado sobre os efeitos do uso intensivo de smartphones por adolescentes.

A proposta de intervenção pode mobilizar a articulação entre Ministério da Educação, redes municipais e estaduais de ensino e a comunidade escolar, com programas de letramento digital, espaços de escuta nas escolas e campanhas de orientação às famílias.

Leia também: Adultização infantil na redação do Enem 

12) Caminhos para o combate à desinformação no ambiente digital brasileiro

Outro tema pontuado por Thiago Braga é "Caminhos para o combate à desinformação no ambiente digital brasileiro". Em junho de 2025, o Supremo Tribunal Federal concluiu o julgamento que reinterpretou o artigo 19 do Marco Civil da Internet, ampliando a responsabilidade civil das plataformas digitais por conteúdos ilícitos publicados por usuários, mesmo sem ordem judicial prévia em determinadas hipóteses. A decisão veio na esteira de debates intensos sobre o PL 2.630/2020, conhecido como PL das Fake News, e da aprovação do ECA Digital.

A polarização do debate público, o papel dos algoritmos, a circulação de discursos de ódio e o uso crescente da inteligência artificial generativa para produção de conteúdo manipulado tornam o assunto central para a sociedade brasileira em 2026. O conjunto reúne três marcas que costumam atrair o ENEM: relevância social, conexão direta com direitos fundamentais e necessidade de proposta interventiva viável.

Como o estudante pode abordar? 

A abordagem mais sólida não trata o problema como se fosse apenas tecnológico, afirma Thiago. É preciso articular a discussão com a formação cidadã, com a educação midiática, com a regulação das plataformas e com a defesa do regime democrático.

Vale também explorar a dimensão econômica do problema: o modelo de negócio das plataformas premia o engajamento, e conteúdos extremos costumam engajar mais. Esse encadeamento ajuda o candidato a ir além da denúncia e a propor soluções estruturais.

Repertórios

O conceito de pós-verdade, trabalhado por Yuval Noah Harari na obra Nexus (Companhia das Letras, 2025), oferece uma chave interpretativa potente.

Referências ao Digital Services Act da União Europeia mostram caminhos comparados de regulação. Episódios concretos da realidade brasileira, como a circulação massiva de mensagens falsas sobre as urnas eletrônicas no pleito de 2022 e os eventos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023, podem ser mobilizados com cautela e precisão. Importante reforçar com os estudantes que a proposta de intervenção precisa equilibrar a regulação das plataformas, a transparência sobre moderação de conteúdos e a preservação da liberdade de expressão. Soluções rasas, do tipo "criar uma lei", costumam pesar negativamente na competência 5, que avalia a proposta de intervenção.

13) População infantil em situação de rua no Brasil

Seguindo o histórico de temas cobrados no Enem, Maysa Barreto, assistente pedagógica da Red1000, destaca o tema "Desafios para combater a população infantil em situação de rua no Brasil".

Dados do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico) de 2024 e que foram levantados pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua da Universidade Federal de Minas Gerais (ObPopRua/UFMG) mostram que o número de crianças em situação de rua aumentou 12 vezes mais na cidade de São Paulo nos últimos dez anos. 

Colchão na rua e objetos pessoais
Milhares de crianças vivem em situação de rua no Brasil.
Crédito: Rovena Rosa / Agência Brasil. 

Em relação às causas, Maysa destaca a extrema desigualdade social, violência doméstica ou pela eficácia parcial das políticas públicas de assistência social.

Como consequência desta realidade, a especialista considera os danos à saúde, prejuízos no desenvolvimento de habilidades essenciais, tais como leitura e escrita, além da violência que as crianças podem sofrer. 

Quanto à argumentação, Maysa pondera que o candidato, ao escrever sobre o tema, pode recorrer à falta de políticas públicas de assistência direcionadas às famílias em situação de rua, a invisibilidade social e o preconceito que esse público sofre.

Veja opções de repertório para o tema:

  • Livro Capitães da Areia (1937), de Jorge Amado: aborda um grupo de menores de idade pertencentes à cidade de Salvador que sobrevivem por meio de furtos e vivem em um trapiche abandonado; a obra trata de temas como marginalização social, pobreza, criminalidade e violência.

  • Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) (Lei 8.069/90): Em seu art. 4º, é previsto que é “dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absolfuta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.” Ou seja, a proteção integral da criança deve ser garantida por todos, mesmo quando há falhas em um dos grupos mantenedores. 

  • Documentário Meninos de rua (1988), de Marlene França: retrata a realidade de crianças moradoras de rua da cidade de São Paulo, evidenciando o abandono, a exclusão e a violência que tal grupo sofre, seja pelo abandono do Estado, seja pelo abandono das famílias.

14) Violência sexual contra as crianças no Brasil: como prevenir e combater a impunidade?

Diante do número elevado de episódios de estutros, 74.930, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023, outra sugestão de Márcia Pelachin é "Violência sexual contra as crianças no Brasil: como prevenir e combater a impunidade?". Como repertório, ela destaca os filmes "A cor púrpura" e "Preciosa".

15) Caminhos para combater o alcoolismo no Brasil 

O abuso de álcool atingiu a marca de 6 milhões de pessoas. Os dados são de um levantamento inédito do inquérito nacional Covitel e da OMS para avaliar o consumo abusivo de bebida alcoólica no Brasil.

O repertório destacado por Márcia Pelachin é o livro "A morte e a morte de Quincas Berro D’água”, de Jorge Amado,obra em que o autor relata, de modo poético, a vida de um cidadão de comportamento irrepreensível, que, em determinado momento passa a ter uma vida boêmia e desregrada.

Confira: Dicas para uma redação nota mil no Enem